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Crônicas de viagens

Dedé em Potosi (Bolívia)


Depois de passar por "maus" momentos na fronteira Argetina /Bolívia, encaramos 9 horas de viagem por uma estrada de chão até Potosi. Até aí tudo bem, só que não foi tão fácil assim. Como se não bastassem toda a poeira e os buracos - comuns em caminhos como este - a rodovia estava em obras. Durante a nossa viagem foram mais de 20 desvios que tiveram de ser ultrapassados, inclusive alguns deles por dentro de um rio. Por várias vezes paramos e pensamos:

- Seguimos pela esquerda ou pela direita? Hummm, é melhor perguntar... - (quando havia uma alma para tal; caso contrário, íamos na intuição mesmo).

Mas tudo bem, obras é sinal de prosperidade e da póxima vez que voltarmos já vai estar tudo asfaltado (?).

Foi neste trecho (Villazón - na fronteira - e Potosi) que fomos apresentados ao Pedágio boliviano. Imaginem a cena:

Você vem tranquilo pela estrada quando, de repente, no meio do caminho (de um lado a outro) há uma corda atravessada. Você pára e ao lado vê uma pequena casinha com algumas pessoas lá dentro. Pronto! Seja bem vindo ao pedágio na Bolívia. Ninguém vem até onde você está. Você tem de sair do seu carro e adentrar na "casinha". Sua dúvida sobre o lugar vai persistir até o último instante, já que a impressão que você tem é de ter entrado em uma borracharia. São posters e mais posters de "mulher pelada" espalhadas pelo recinto. Você só terá a certeza de que é um pedágio quando escutar:

- São vinte bolivianos!

Você paga e pensa que esta livre, né?? Nada disso. Um outro senhor (que diz ser da polícia) te pede mais cinco bolivianos e diz ser para... "registro". Jajajaja. Na cara dura seguia a extorção. Lembram do horror que havíamos passado na fronteira há poucas horas atrás? Nossa viagem prometia emoções fortíssimas!!

Já era noite quando chegamos na terceira cidade mais alta do mundo (há controversias, alguns dizem ser a segunda e outros a quarta). A nada mais que 4.100 metros acima do nível do mar (em média, pois pode ser até 4400m) - entramos em Potosi procurando um hotel para nos hospedar. Cansadíssimos da viagem e já sentindo os efeitos do "soroche" (mal da altitude), demos mil voltas pela cidade até encontrar um lugar decente para dormir. Ruas cortadas, pouca iluminação e informações desencontradas contribuiram para aumentar o nosso drama. No hotel, Hansi - que fuma - mal podia andar e ficou ainda mais triste quando descobriu que o seu quarto ficava no terceiro andar e que o hotel não tinha elevador!! Quase pediu para dormir no sofá da recepção mesmo. Até então me sentia bem e me ofereci para subir as malas, sem problemas... o pior viria no dia seguinte.

Ao despertar pela manhã sentia que minha cabeça pesava mil quilos e a qualquer momento iria rebentar de tanta pressão e dor. Me sentia péssimo!! Sentia que iria vomitar em qualquer momento.

- O que eu faço agora? - pensava assim, um pouco desesperado por estar em um lugar histórico e sem as mínimas condições para botar o pé para fora. Forçosamente desci para tomar (tentar tomar) café e com os poucos goles que pude tragar tomei dois comprimidos para a dor de cabeça. Não descia nada. Estava um lixo, imprestável. Voltei ao quarto e agora já sentia dificuldade em subir alguns poucos degraus. Deitado na cama pedi um chá de coca e esperei até que os remédios comessassem a fazer efeito. Depois de muitas orações meus pedidos começaram a ser atendidos e, aos poucos, começava a me sentir bem. Hansi, por sua vez, amanheceu melhor e Coco sentiu pouco os efeitos da altitude. Meia hora mais e já estávamos com o pé na rua.

A Frase "Vale un Potosi!" está por toda parte, quando se trata de promover a cidade. Não sei se você já ouviu - eu confesso que nunca havia escutado - porém; a frase me caiu simpática, assim como a cidade. Tal dito começou a ser usado lá na época da colônia (espanhola) para expressar o alto valor de alguma coisa - referenciando assim todas as riquezas encontradas neste lugar. Riquezas estas que foram "levadas" (para não dizer roubadas) para a Espanha e hoje brilham em pomposas catedrais e palácios. Confesso que este assunto me perturba e se fosse europeu sentiria vergonha destas coisas. Se bem que até hoje eles se apoderam de nosso patrimônio sem o mínimo remorso e a história - mesmo que de outra forma - se repete, santa ingenuidade esta minha. But, Voltando a Potosi...

Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO (1987), Potosi é uma das cidades mais antigas e ricas em história da América. Para se ter uma idéia, só na parte central são mais de 20 igrejas centenárias. Muitas no estilo Barroco nos encantam com suas riquezas de detalhes arquitetônicos.

Aos poucos ia me sentindo cada vez melhor e na visita à Catedral resolvi encarar o subida até a torre (jejeje, o que o indivíduo não faz para conseguir uma boa foto). Coco não quis encarar e Hansi resolveu ficar ao redor da praça central, pois novamente não se sentia muito bem.

Não é fácil visitar Potosi, o fôlego é escasso. Porém, o pouco tempo disponível, aliado ao prazer de estar em uma cidade histórica, me serviram de incentivo para enfrentar os efeitos da altitude e percorrer a cidade a pé mesmo.

Desta vez cada um conheceu a cidade no seu tempo. Hansi ficou pela praça, Coco foi procurar algumas antiguidades e eu me perdi pelas pitorescas ruas da cidade.

Sacadas todas feitas em madeira, umas fechadas, outras não. Portas e janelas seculares talhadas com desenhos que chamavam a atenção. Ruas estreitas, um emaranhado de fios e cabos voando pela cidade. Placas comercias anunciando de tudo e poluindo a bela arquitetura que grita por restauração. Crianças saindo da escola uniformizadas. Cholas cortando as ruas de um lado para outro com seus filhos carregados nas costas. A mulher gari limpando a cidade com roupas típicas. Protestos na praça principal pedindo aumento de salários para uma categoria de trabalhadores... Ufa!!!! Nada escapava de meu olhar atento.

Uma breve parada para conhecer a casa de la moneda. Hoje um importante museu (dizem que é um dos mais importantes e ricos da América) que ocupa um quarteirão inteiro bem no centro da cidade.

Há poucos metros dali me deparei com a imponente Torre de la Compañia. Riquíssima em detalhes arquitetônicos a obra foi concebida como um arco do triunfo e é considerado o principal monumento religioso da Bolívia.

De quase todos os pontos da cidade se podia avistar o Cerro Rico, onde se encontram as famosas minas de Potosi. Chegamos ao cerro no final da tarde e nossa ideia era visitar uma das minas. Mal havíamos chegado e nosso carro foi cercado por várias pessoas oferecendo o passeio. Nos sentimos muito inseguros no lugar. Não havia nenhum local para informações sobre a visitação. Parece que o melhor era agendar uma visita guiada por uma agência; porém, descobrimos isto tarde demais. Baixamos do cerro sem entrar nas minas. Bem, aqui fica uma boa desculpa para voltar a Potosi.

Dias depois, já em casa, assisti um documentario, sobre "Rituais de Fé" e falavam justamente sobre as minas de Potosi.

Todos os mineiros antes de começarem seu trabalho, levam oferendas (folhas de coca, álcool e cigarros) ao "TIO", nome dado a um "Deus/Diabo". Não se espantem, é a mais pura verdade. Dentro de cada mina há uma imagem do "Tio" que é o capeta, demo, ou como queiram chamar. Tal lenda foi criada pelos espanhóis como forma de obrigar (escravizar) os indíos a trabalhar a profundidades cada vez mais baixas, com a ameaça de que se não trabalhassem o diabo lhes mataria.

Mas o tiro saiu pela culatra, pois para os indíginas não há Deus bom ou mal e eles simplesmente começaram a admirar e respeitar a figura do capeta. Sendo assim, até hoje todos os dias os mineiros prestam sua homenagem ao "TIO", fumando, mascando folhas de coca e bebendo alcool (puro), junto a estátua do diabo.

Um número impressionante de mineiros já deixaram suas vidas soterrados pelas minas. Fala-se de que centenas de milhares de trabalhadores já morreram ao longo da história. Número este que ainda hoje cresce quase que diariamente.

Naquela noite, partimos de Potosi em direção a Oruro (terra do presidente Evo Morales), onde iríamos dormir para no outro dia sairmos em direção a Cochabamba.

No retorno de Cochabamba, outra parada por Potosi onde dormiríamos uma noite mais antes de partir para Sucre. Foi o momento de conhecer a cidade de noite; porém, não muito, pois novamente os efeitos da altitude já nos deixavam exaustos.

Hoje entendo muito bem porque as equipes de futebol sofrem quando vem jogar na Bolívia. Se andar já é dificil, imaginem disputar uma partida de 90 minutos a 4100m de altitude? Haja pulmão.

Porém, nada que pudesse me impedir de dar mais uma volta pela cidade e tirar algumas fotos noturnas, afinal "POTOSI, VALE UM POTOSI!!"

Abraços... Dedé.



[ Clique nas imagens para visualizá-las ampliadas ]
Crônica 1   Crônica 2
A caminho de Potosi   A vendedora de laranjas
Crônica 3   Crônica 4
Arquitetura de Patrimônio da Humanidade   Campanario da torre da Catedral
Crônica 5   Crônica 6
Casa de la moneda   Casas de adobe (barro) típica dos povoados do interior
Crônica 7   Crônica 8
Catedral de Potosi   Cena rural
Crônica 9   Crônica 10
Flagrante no centro da cidade   Igreja San Francisco
Crônica 11   Crônica 12
Menino de vermelho   Noite em Potosi
Crônica 13   Crônica 14
Ponte impressionante   Potosi e o Cerro Rico
Crônica 15   Crônica 16
Ruas de Potosi, cholas, casas e o Cerro chico ao fundo   Sacadas de Madeira
Crônica 17   Crônica 18
Torre de la campañia   Tunel pra lá de estreito
Crônica 19   Crônica 20
Um dia comum em Potosi   Um sorriso pra lá de simpático
Crônica 21   Crônica 22
Uma das principais ruas de Potosi com o cerro Rico ao fundo   Vista de cima da torre da Catedral



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