Dedé na Fronteira Argentina/Bolívia
Eu já estava acostumado com as burocracias e extorsões da fronteira
de Uruguaina (Brasil) e Paso de los Libres (Argentina). Na
ocasião, escrevi uma crônica contando a aventura de cruzar esta
fronteira com um ônibus da Pluma. Porém, nada se compara a esta
nova experiência vivida na fronteira entre as cidades de La Quiaca
(Argentina) e Villazón (Bolívia).
Em princípio aquele lugar era para mim um ponto de referência
histórico. Já que ali completaria minha escalada por território
argentino de um extremo a outro. Em 2006 havia estado na Patagônia,
mais precisamente em Ushuaia, na província de Tierra del fuego,
lugar chamado de "Fim do Mundo" - exatamente por ser a cidade mais
austral do continente. Ali, uma placa de sinalização avisava:
USHUAIA - Buenos Aires a 3040 km e "La Quiaca" a 5171 km.
Claro que registrei este momento e prometi um dia chegar em
La Quiaca e fazer o mesmo.
Três anos depois e muita estrada rodada em território Argentino,
Dedé chegava a outra ponta. E outra placa dizia:
Bienvenidos a LA QUIACA - Ushuaia a 5121 km.
Tá, tá, tá...Tá, tá, tá...(entenda isto como a música da
vitória da Fórmula I)
Missão cumprida... a Argentina estava (praticamente) descoberta
de ponta a ponta. Mais ainda, era o ponto final da estrada
mais "mística do País" a "ruta 40" (estrada nacional 40),
que liga a Argentina de Sul a Norte, costeando a Cordilheira dos
Andes. Dois aspectos também viriam junto com esta conquista.
Primeiro: "De Ushuaia hasta La Quiaca" - Frase célebre
(é equivalente a dizer no Brasil "Do Oiapoque ao Chuí") pronunciada
por conquistadores, aventureiros, fotógrafos e tantos outros
descobridores deste país de paisagens incríveis. Já teria meu
próprio legado por aqui.
Segundo: Conheço mais a Argentina que meu próprio país...
jejeje, um fato no mínimo curioso, mas que pretendo deixar no passado
em pouco tempo... Aguardem!!
Bem, esta foi a história mais alegre desta crônica, o que viria
pela frente era uma triste história de desolação, covardia, medo,
escravidão, falta de oportunidade... e pode colocar você mesmo
tantos quantos adjetivos passar pela sua cabeça depois de escutar
esta história... por favor, tirem os seus filhos da frente do
computador e preparem-se para o que eu tenho para lhes contar...
Primeiramente nossa entrada na Bolívia foi bastante tumultuada.
Na apólice do seguro do carro de meu amigo Hansi, dizia que a cobertura
valia para a Argentina e todos os paises limítrofes (óbvio,
isto inclui Bolívia). Porém, para o policial da fronteira era
necessário que estivesse escrito... BO-LI-VI-A. Dai já se pode
imaginar né...? Hansi (que mora na Patagônia) começou a se comunicar
com a sua seguradora e tentar fazer com que eles pudessem convencer
os policiais da validade do seguro... claro, isto levaria umas
(poucas) 3 a 4 horas entre conversações e ligações para a Patagônia...
Aproveitei o momento para começar a registrar algumas fotos do
local. Em pouco tempo eu também estaria metido em uma grande
encrenca.
Estava tirando fotos ainda do lado argentino. Muitas cholas e
cholos bolivianos (e também argentinos, já que na fronteira a
cultura é a mesma) desfilavam com suas roupas típicas coloridas,
um prato cheio para um fotógrafo. Ao lado da aduana (pegado), havia
um caminho cercado por uma tela de arame em ambos os lados. Até aí,
tudo bem. Só que de repente um estranho desfile de pessoas - que
de longe pareciam formigas - começou a acontecer. Aquilo me chamou a
atenção - e distante - comecei a fotografar. Já havia percebido
que estava sendo observado por alguns policiais, mas não
dei muita bola.
Foi quando um policial se aproximou e pediu meu passaporte.
Lhe alcancei. Me disse que eu estava tirando muitas fotos e que
precisava ter uma "conversinha" comigo em particular lá
dentro da aduana. Gelei! Comecei a ficar nervoso e abraçei a
minha câmara fotografica. Numa sala reservada e com outro policial
mal encarado, começaram a fazer uma série de perguntas de uma forma
um pouco, eu diria...intimidadora. Enquanto anotavam os dados
do meu passaporte em um velho caderno o interrogatório seguia:
- De onde você é? Para onde vai? O que você esta fazendo aqui?
Você é jornalista, para qual jornal você trabalha? Porque está
tirando tantas fotos?
Fiquei muito nervoso e meu estômago começou a embrulhar. Olhei
para aquelas caras de mau e pensei:
- Vou me cagar!!!
Aos poucos ia respondendo as perguntas...
- Sou brasilero, com residência na Argentina. Não sou
jornalista, sou fotógrafo free-lancer e registro fotos de paisagens e
pessoas dos locais onde visito.
Respondia nervoso e me segurando para não dar um vexame ali.
Os brutamontes, vestidos com uniforme verde militar (confesso
que me senti como um perseguido da época da ditadura), se
olhavam entre si com uma aparência nada amistosa e sentia
que não estavam levando fé em minhas respostas. Um deles batia
com meu passaporte na mesa de uma forma seca e constante até que
desapareceu levando o mesmo. Temendo uma forma de intimidação mais
pesada (sei lá, a gente escuta tantas histórias por ai, que eu pensei
que poderia ser levado para uma sala de tortura para confessar alguma
coisa ou até mesmo pensei que eles poderiam confiscar a minha
máquina), olhei para a cara do policial (enxergava nele um
torturador cruel), fiquei num vermelhão só, me contorcia todo e não
consegui me segurar:
"Putz, acho que me caguei"!!!
Para a minha surpresa e alegria tinho sido apenas (super)
gases que aos poucos começaram a tomar conta de toda a sala.
Já não conseguia mais olhar na cara do policial quando o outro voltou
com meu passaporte. Novamente eles se olham com caras nada amistosas,
só que desta vez eu poderia apostar que eles estavam pensando era
outra coisa... "acho que este cara se cagou!!!!". O policial
me devolve o passaporte e sai correndo da sala. O outro começa a me
passar algumas recomendações (se notava que também estava muito
apressado) e dizia:
- O senhor pode ir, estamos com todos seus dados registrados;
porém, tenha cuidado ao tirar algumas fotos, pois poderá ter
alguns problemas com o povo local.
Abraçado em minha máquina e com o passaporte nas mãos, saí
apressado da sala, o policial também! Porque será?
Procurava meus amigos para contar esta terrível experiência, mas
não os encontrava. Me sentei ali (no chão mesmo) e tentava me recompor
do que havia passado.
Algum tempo depois, Coco e Hansi apareceram e disseram que haviam
de ir até a cidade para resolver alguns assuntos (tiveram de ir até a
polícia da cidade e gravar a placa do veículo no vidro do carro).
Algum tempo depois e já bem mais calmo do "rappa" sofrido pelos
"gendarmes" (policiais da fronteira), resolvi dar mais uma
volta pelo local.
Novamente um número imenso de pessoas caminhavam rapidamente em
extensas filas indianas com grandes volumes nas costas que
muitas vezes superavam o seu próprio peso.
Minha curiosidade superou o medo e aos poucos fui me aproximando
deles. Junto a tela começei a registrar aquilo tudo, até um video
consegui fazer. Queria ver onde a fila começava e andei uns 100
metros até chegar no... "CHIQUEIRO". É, amigos, é este mesmo o
nome dado ao lugar onde as mercadorias são colocadas nas costas
das "mulas" e ali começam o seu calvário.
Arrepiei!!! O chiqueiro (e aqui não me refiro ao estádio do
inter), lembra um grande campo de concentração Nasi. Um amplo lugar
onde diariamente caminhões descarregam toneladas de mercadorias
(estima-se umas 300 toneladas diárias que passam a fronteira nas
costas das mulas). Ali, seres humanos não valem nada.
Presenciei camionetas passando pelo lugar cheias de mercadorias e
gente, praticamente atropelando as pessoas que ali estavam.
Era igual o que a gente faz quando tem de espantar um rebanho de
vacas que estão no nosso caminho. Pouco a pouco me infiltrava naquele
lugar e discretamente registrava as fotos. Porém, sentia
que estava sendo observado e já era o momento de começar a
regressar do inferno. Claro, enquanto regressava usava minha
câmera como uma metralhadora, precisava registrar aquela cena surreal
que estava presenciando.
As "mulas", "passadores" ou "bagageiros", são
alguns dos tanto codinomes dado a uma gente que há muito tempo
perderam a esperança. Reféns de uma realidade de desemprego
e falta de incentivos, são literalmente escravos de um sitema que
se aproveita da miséria humana para obter suas ganâncias a
qualquer preço; e o que é pior, a olho nú, sob o consentimentos de
todos.
Ninguém é poupado, mulheres grávidas, crianças, idosos,
enfermos, todos trabaham como bichos apenas para garantir o pão
de cada dia. Para que vocês tenham uma idéia, o preço pago as mulas
para passar uma bolsa de farinha de 50 kg é o equivalente a
R$ 0,35 (trinta e cinco centavos de real). É comum ver pessoas
com duas e até mais bolsas andando apressados olhando para
um horizonte que parece que não chega nunca. A meta é passar
umas 50 bolsas de 50 kg cada por dia, tarefa nem sempre possível.
Homens com quatro, cinco caixas de tomates caminhando encurvados,
quase de quatro pés (e aqui não seria nenhum absurdo dizer que eram
"quatro patas"). Caixas de refrigerantes, azeite, batatas,
esforço sobre humano de uma cruel exploração de seres humanos para
com seus semelhantes. A humanidade é desumana e tem nome e
sobrenome: Nós mesmos. E ai de alguma mula que deixe
cair uma carga e que se extravie. Está condenada a trabalhar o dia
todo para pagar o prejuízo.
Como se não bastasse a exploração e o desprezo impostos por
seus "patrões" (o nome mais apropriado seriam donos, já que estes não
lhes pagam nenhum tipo de direitos e assistência médica), a
"Via Crucis" das mulas não param por aí. Diariamente,
também sofrem a humilhação e o preconceito aplicado pela força
bruta dos gendarmes, que muitas vezes os agridem pelo simples
fato de que uns estão se debatendo uns contra outros. Claro, com o
peso e a quantidade de mercadoria sobre as costas, eles nem sempre
enxergam o seu colega da frente e muitas vezes se chocam e saem da
fila. É porrada por todos os lados.
"...é bom aprender, a vida é cruel!", cantam os Titãs
na música "Homem primata". Tudo não passava de uma ingênua diversão,
que ao ouvir os primeiros versos da música era impossível não se
esbaldar cantando e dançando. "Desde os primordios até hoje em
dia" eu diria que homem ainda faz muito pior do que o macaco
fazia...
Hoje vendo com meus próprios olhos a maldade que somos capazes de
fazer procuro não me espantar mais. Porém, é impossivel ficar
passional diante de tanta crueldade. Pessoas inocentes tratadas
como bichos que, com apenas 30 anos, aparentam facilmente 50.
Rostos tristes e dolorosos, com seus pescoços inclinados a
frente parecem olhar para o nada (e talvez seja isso que veem, nada).
Criaturas que voltam para suas casas (quando possuem uma) completamente
adormecidos por uma jornada de trabalho sobre humana. Seus
corpos doloridos e curvados pelo excesso de carga diária pedem
um descanso, um amparo. Com o pouco que ganham só lhes resta
comprar folhas de coca e álcool (quando digo álcool, é
álcool mesmo a 94% que tomam puro ou com coca-cola), que são os únicos
remédios que lhes fazem esquecer a dura jornada de um trabalho
escravo. E o que é pior, é que amanhã começa tudo outra vez.
Depois das longas horas de espera (creio que foram umas 4)
finalmente estávamos liberados para passar para o lado
boliviano... OBA!!! É, mas nem tudo seriam flores do lado de cá
da fronteira.
Primeiramente uma fila para uma breve consulta para saber se
apresentávamos alguns sintomas da "gripe A". Feito isso,
uma nova fila para entrada no território boliviano. Hansi e Coco
não tiveram nenhum problema, passaram de cara; porém, eu... ai meu
Deus!!!
O policial do lado boliviano dizia que para a minha entrada no país
era obrigatório apresentar uma carteira de vacinação de
FEBRE AMARELA. Claro que não tinha nada disto comigo e o
clima começou a ficar tenso. Lhes expliquei que tenho residência
na Argentina e que já havia viajado para varios países da Europa e
nunca foi necessário apresentar documento de vacinação.
- É mas aqui tem - dizia o policial já com uma cara
de safado.
- É, mas eu não tenho - lhe respondi já sem
muita paciência.
O gendarme estava acompanhado de mais dois colegas e atrás
de mim uma extensa fila para a aduana. Fiquei ali, alguns segundos
olhando para a cara do policial e ele olhando para a minha. Foi
quando ele tomou a iniciativa e foi direto:
- Bem, então vamos fazer o seguinte, tu me dá uma
ajuda e eu te libero!!
Fiquei perplexo!! Não esperava que ele fosse assim...
tão direto.
- Eu tenho vinte pesos pode ser?
- Sim, pode - me disse.
Foi então que ali, na frente de todos abri minha carteira e lhe
entreguei vinte pesos argentinos. Sem nenhum pudor ele agarrou o
dinheiro e colocou no balcão na frente dos seus colegas. Por incrível
que pareça quem ficou envergonhado fui eu. Dei uma
olhadinha para trás e vi que as pessoas haviam visto o que estava
acontecendo. Para finalizar, o meu amigo policial (claro, a estas
alturas ele estava com um largo sorriso no rosto e me tratava muito
bem) fechou aquele agradável diálogo com chave de ouro:
- Olha só, se algum colega meu te pedir alguma coisa mais
adiante tu não precisa dar não, diga que já colaborou aqui
comigo!!
Jejejeje, "Que País é Este?" pensei. Onde estou me metendo?
Depois relaxei e me dei conta que em todo o lado é igual,
infelizmente.
Ao fim, estávamos liberados para seguir rumo até o nosso destino
daquele dia, a cidade de POTOSI. Não sabíamos quase nada sobre
o trecho a ser percorrido. Apesar de estarmos viajando com GPS,
não conseguimos carregar no aparelho nenhum mapa da Bolívia
(não há mapa do país disponível para GPS). E tão pouco
encontramos uma mapa (impresso) para comprar. Pronto. Começava ali,
mais uma emocionante aventura em uma estrada de chão batido com muitas
surpresas no caminho.
Porém, isto é assunto para o nosso próximo capítulo...
Abraços...Dedé.
Quanto vale a vida longe de quem nos faz viver?
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