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Dedé em Sevilha...
Queridos amigos,
Se vocês pensam que Porto Alegre é quente no verão, venham visitar
Sevilla nesta época. É simplesmente insuportável. Basta alguns passos
pela rua e você se desidrata, que calor!! Lembro do termômetro marcar
43 graus, loucura total!! Mas a cidade compensa, foi mais uma grata
surpresa. Sevilla foi a cidade mais quente e o dia mais triste
de minha viagem, ja contarei.
Acabara de deixar a terra de Cervantes "Dom Quixote" e
"por amor as causas perdidas" chegava em Sevilla, terra do
conquistador Dom Juan, do mais típico da Espanha, a dança
flamenca, touradas e muito ouro que trouxeram do Brasil
(confesso que via toda aquela riqueza e pensava que quase tudo isto
foi nosso e trazido assim, descaradamente, me dava vontade que pegar
de volta o que me pertencia, "Muito ouro se achava no Brasil, mas
no mundo é que ele brilha". No Porto do Rio Guadalquivir está a
"torre do ouro" local onde era depositado o ouro que vinha do Brasil e,
através de um imenso túnel era transportado para a "linda"
Catedral de Sevilla.
Bem, mas minha história de Sevilla começa lá em Madrid.
Lembrem que nesta minha viagem não vim só para conhecer
lugares mas sim, também, para conhecer pessoas. E foi em uma destas
noites em Madrid que conheci um personagem muito especial, vou
chamá-lo aqui de "Gentileza", por sua semelhança com o chamado
profeta do Rio que fazia desenhos em muros e distribuia flores pela
cidade.
Gentileza vive em Sevilla, mas estava passeando por Madrid. Sua
vitalidade e comunicação era surpreendente e seu senso de humor mais
ainda. Era capaz de contar 10 piadas em 2 minutos e desenhar uma
pessoa em segundos em um simples guardanapo. Quando gentileza descobriu
que estávamos indo (eu e meu companheiro de viagem, Hansi, passar
uns dias em Sevilla de cara nos convidou: - Vocês estão convidados
para ficar na minha casa. Fiquei contente, mas gostaria de conhecer
um pouco mais daquela cativante figura. Estávamos em um bar e, de
repente, entrou um vendedor de flores. Gentileza lhe comprou todas
(eu disse todas) as flores do rapaz. Pediu vasos para os donos do bar
e enfeitou todo o local com flores de todo o tipo e cores. Já de
madrugada, quando íamos embora pegou todas as flores e saiu pela rua
distribuindo a todos os que via. Taxistas, mendigos, casais,
prostitutas, etc... fiquei impressionado, me diverti muito, rimos
muito. Gentileza também bebia muito e cada vez estava mais
"louco". No caminho encontramos 5 brasileiras, cada uma ganhou uma
flor e ao final tiramos fotos (depois com calma no Brasil mandarei
as fotos e contarei mais detalhes, daqui escrevo tudo muito rápido e
sem corrigir nada, ok?). O dia amanhecia, estava cansado e voltei
ao hotel. Gentileza disse que passaria pelo hotel pela manhã para
pegarmos o trem até Sevilla, ja que fazia questão de nos mostrar a
cidade. Ok. Creio que Gentileza seguiu toda noite pelas ruas de
Madrid, bebendo e distribuindo flores. Na manhã seguinte lá estava ele,
elétrico como se tivesse dormido 8 horas, mas na verdade creio que
não dormiu nada. Fomos ate a estação de Atocha (aquela mesma do
atentado de Madrid e tomamos o trem veloz (eu vi marcar até
280 km/h, mas dizem que vai até 350).
Em apenas 2 horas e meia estávamos em Sevilla. Hansi estava muito
preocupado e com receio de ficar na casa de Gentileza, porque
literalmente o cara era louco - Gentileza me contou que há 7 anos
está aposentado por problemas mentais - mas confesso que não me
preocupei muito com isto. Via nele, acima de tudo, uma pessoa muito,
mas muito amorosa.
No trem Gentileza fazia tudo ao mesmo tempo: escutava rádio,
cantava, contava piadas, falava com todos (claro que muitas vezes
era inconveniente). Ainda no caminho ele tirou do seu pescoço uma
corrente que usava e me presenteou. Não queria aceitar, mas ele fez
questão. Gentileza era assim, impulsivo, metamorfosico,
esquisofrênico (mas quem nao é louco?).
Chegando em Sevilla, Hansi me disse que iria para um hotel, que não
se sentia seguro com este cara. Lhe disse ok, mas eu iria ficar na
sua casa; além do mais, ia economizar 2 noites de hotel. Tudo certo,
Hansi instalado no hotel que Gentileza lhe conseguiu (por alí todos
lhe conheciam).
Fomos almoçar e depois iríamos para a sua casa. Não sem antes
Gentileza roubar algumas flores de alguns jardins e seguir o seu ritual
de distribuiçao pelas ruas. A cada pessoa que oferecia também
tirava uma foto.
Daí veio o meu primeiro susto. Durante o almoço, Gentileza me
mostra uma carteira de "serviços penitenciários"!! Fiquiei branco,
gelei!! Pensei, "onde vim amarrar o meu burro!!" Bem, mas já era tarde.
Havia confirmado que ficaria em sua casa e ele veio de Madrid para nos
acompanhar, seria uma grande disfeita, apesar do medo que se
instalava...
Procurei averiguar o tinha acontecido e descobri que por haver
bebido muito as vezes se metia em confusoes e por isto teria de se
apresentar de tempos em tempos para a polícia. Ok. Almoçamos e
saímos a dar uma percorrida pela (quente) cidade. Linda, linda,
preciosa, assim é Sevilha - pelo pouco que conheci.
No final da tarde fui até o apartamento de Gentileza - confesso que
não sentia nenhum medo ou receio. Chegando lá, ele começou a "roubar"
algumas rosas do jardim do condomínio e já começava a brigar com uma
senhora que lhe repreendia. Esta mesma história eu vi se repetir
algumas vezes, cada vez que voltávamos ao seu apartamento. Antes disso,
ele havia encontrado pelas ruas carvão e algumas hervas, colocou em
sua mochila e levou para casa. Em sua casa flores por todo o lado.
Quadro e mais quadros de anjos e figuras de Jesus Cristo, muitas
gravuras de obras de arte de varios locais de Sevilha.
À noite, um amigo seu veio nos apanhar (de carro) para darmos uma
volta pela cidade. Passamos no hotel, pegamos Hansi e saimos.
Gentileza estava calmo e nos contava em detalhes toda a história da
cidade, com detalhes e datas impressionantes, era outra pessoa. Até o
primeiro copo de cerveja...
Voltamos para casa muito, mas muito tarde, depois de muito
penambular, distribuir flores e fumar pelas ruas de Sevilha.
Na manhã seguinte, Gentileza começou a separar muitas coisas e
queria me presentear com algumas delas. Disse que não poderia aceitar,
pois não teria como levar na mala, inútil dizer não!! Encheu uma
mochila e me entregou. Também ali lhe deixei algumas coisas minhas.
Saimos para tomar café e Gentileza colocou chapéu de couro,
suspensorios, alguns adereços em couro e saimos. Ele parecia um
cowboy naquele calor todo. De repente, vê uma loja de uniformes,
entra. Fico do lado de fora esperando. De repente retorna completamente
mudado. Gentileza havia comprado calça e camisa social nova, assim
num piscar de olhos e em disse que iria trabalhar no restaurante de
sua família. Antes, passamos por uma floricultura e comprou algo como
30 euros só de flores, um imenso bouquet (lindo) com as mais variadas
flores. Chegamos até o restaurante, lhe deixei e fui conhecer um pouco
mais da cidade (também era quase impossível ficar mais de 2 horas
seguidas ao lado de uma pesssoa hiperativa), mas sai dali com um
sentimento estranho, de que algo estava por acontecer.
No final da tarde retornei e Gentileza estava transtornado,
seus irmãos não haviam aceitado sua ajuda para trabalhar e ele bebia
sem parar. Estava na porta sem entrar com o imenso bouquet já em
um vaso com água. Pediu que eu levasse o vaso para o hotel de
Hansi porque ali ele não iria deixar. Saiu dali correndo e foi a outro
bar beber. Entrei e tentei conversar um pouco, mas seguia
distribuindo flores e tirando fotos. Lhe disse que iria até a
internet e voltaria em uma hora para retornarmos até a sua casa
para ele descansar.
Tarde demais. Já se escutava sirenes de ambulância e do carro da
polícia. Sua família havia pedido que o internasse. Estava no ciber
quando tudo aconteceu, por sorte, não sei como reagiria ao ver levarem
meu amigo. Quando retornei ao hotel de Hansi vi que das lembranças do
furacão Gentileza ficaram apenas as flores que havia pedido para
deixar la no hotel. Nao aguentei saber que haviam levado meu amigo
que com sua loucura era exagerado em sua generosidade, em sua gentileza,
em fazer todas as pessoas a sua volta sorrir, seja com uma piada ou
com uma rosa. A viagem a Sevilla tinha acabado naquele instante. Foi
o momento mais triste da minha viagem. Me sentei ali na rua e fiquei
pensando que jamais poderia nem sequer me despedir de meu amigo,
que apesar de louco, me havia ensinado muitas coisas bonitas nestes
poucos dias que passamos juntos. Sevilha ficou sem graça, sem a
vitalidade, sem bondade. Naquele instante percebi o quanto havia me
apegado aquele louco e a sua loucura, a loucura esteve muito perto de
mim também e mais uma vez chorei muito, desta vez nao por emoção,
mas sim de tristeza de ver um amigo partir assim desta forma.
Passei o final do dia em um café... pensando e me refugiando do
calor. Aquelas alturas pensava que Gentileza havia sido sedado e
não receberia visitas por vários dias, seria impossível vê-lo antes de
partir para Portugal. Passando em frente a um bar onde tínhamos
estado na noite passada (onde uma menina vendia caipirinha do
Brasil), lhe contei toda a história. Ela me disse: - Vá até o
hospital, talvez você ainda possa vê-lo!!
Voltei ao restaurante e perguntei para onde lhe haviam levado. Não
tinha esperança de vê-lo, mas resolvi tentar. Na entrada do hospital
avistei um jardim, tomei coragem e roubei algumas flores. No hospital
não se podia entrar, expliquei o caso disse que estava voltando para
o Brasil e só queria me despedir de meu amigo... Não sei como o rapaz
me deixou entrar. Vi Gentileza ali pela última vez. Quando entrei
ele me disse. - Flores? Lhe disse sim mas que nao eram bonitas como
as dele. Não pude ficar muito, só o tempo de lhe dar um abraço e
lhe agradecer por toda a sua "Gentileza".
Saí contente por haver me despedido de meu amigo, sem entender
muito porque a "loucura" estava muito próxima de pessoas que
ofereciam sorrissos, flores, Gentileza, que tinham muitos fotos de
anjos em sua casa, que tinham um relação muito forte com a música,
que tinham um desapego pelas suas coisas, que presenteavam as outras
com aquilo que de melhor tinham em sua casa ou em seu corpo. Algo
em mim havia mudado. Era preciso seguir em frente, Portugal
estava logo ali e a (linda) Sevilha já não tinha graça. Era hora de
partir, de pegar minha mochila, minha loucura e juntar tudo com
o muito de Gentileza que hoje mais do que nunca levo comigo!!
O MUNDO É UMA ESCOLA, A VIDA É UM CIRCO, AMOR PALAVRA QUE LIBERTA,
JÁ DIZIA O PROFETA".
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