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Dedé em Mendoza!! (e o dia em que quase bati as botas!)
Queridos amigos,
Vocês já imaginaram uma "Cidade-Bosque" em uma
região de clima desértico? Se a resposta for "não" vocês estão
completamente enganados. Agora se a resposta for: "sim, eu já
imaginei", está na hora de deixar de imaginar e conhecer Mendoza.
Situada no pé da Cordilheira dos Andes, fronteira com Chile,
distante 1080 km de Buenos Aires, Mendoza - e não "Mendonça" como a
maioria de nós brasileiros estamos acostumados a pronunciar - é
conhecida mundialmente como uma terra de ótimos vinhos, do turismo
aventura e do sol. Sim, em Mendoza os dias de céu ensolarado são
uma constante e a chuva é um acontecimento raro. Durante todo o
ano chove algo em torno de 250 mm, isto é quase nada. Daí vocês
devem de estar se perguntando: - Tá e como uma cidade com este clima
pode ser chamada de Cidade-Bosque? Ok, eu explico. De clima árido,
Mendoza jamais seria uma terra tão produtiva se não fosse um pequeno
detalhe: A "Mão do Homem". E aqui temos a obrigação de exaltar isto -
em tempos em que se fala muito de devastação e destruição causados
pelo homem, por aqui as coisas são bem diferentes. TODOS OS LUGARES
EM QUE SE VÊ ALGO VERDE NA CIDADE SÃO REGADOS ARTIFICIALMENTE. Isto é,
toda a cidade e também muitas cidades vizinhas. Toda a água que
banha a cidade provém da montanha. Do derretimento da neve da
cordilheira a água é captada e chega até a cidade através de um grande
canal de onde abastece outros pequenos canais chamados "Acequias".
Todas as ruas da cidade possuem estes canais a céu aberto que irrigam
os parques, árvores e todo o verde que se na cidade - e cá pra nós,
Mendoza é a cidade mais arborizada que eu já conheci. Com isto a
cidade de clima desértico torna-se muito mais fresca. Ponto para o
Homem e a engenharia, é claro.
Bem, mas a minha história em Mendoza começou pelo Chile, em
Santiago. Já havia estado no Chile o ano passado (hey ainda
falta escrever alguns relatos desta viagem). Havia escutado
muito falar da travessia da Cordilheira dos Andes, que liga As
cidades de Santiago e Mendoza. Mas na ocasião de minha estada no
Chile, não me alcançou o tempo para percorrer este caminho.
Há um mês atrás havia conhecido um mendocino em Buenos Aires.
Ficamos amigos e ele caiu na asneira de me convidar para conhecer a
sua cidade. Santa ingenuidade, Batman (as pessoas não sabem que se me
convidam para conhecer uma nova cidade eu vou, ainda mais nesta
situação de ter onde ficar e contar com alguém do local),
novamente não pensei duas vezes. Aceitei de cara. Na ocasião, a
passagem até Mendoza desde Porto Alegre estava mais cara que ir
até Santiago. Conversei com Côco (este é o apelido do meu amigo)
e ele disse que não teria problema de me buscar em Santiago,
assim faríamos o caminho através da cordilheira de carro.
Bingo!! Estava matando 2 coelhos de uma só paulada. Côco havia feito
o caminho de Mendoza até Santiago em umas quatro horas. No
retorno demoramos sete. Era impossível ficar indiferente diante de
tanta grandiosidade. Montanha com neve, sem neve, com cores
alucinantes, rios, pontes, túneis, penhascos, curvas, curvas e
mais curvas.
Como bom bairrista que é Côco me falava, "não tira tanta foto aqui,
o lado de Mendoza é mais bonito!". Claro que não dei a mínima para
ele e segui tirando um montão de fotos. Entramos no lado mendocino e
realmente me parecia mais bonito, mais imponente. Tirei mais algumas
fotos até que: "Oh não, não acredito, está acabando a minha bateria".
Bem creio que deveria ter escutado quando Côco me falou.
Chegamos na casa do Côco já de noite. Uma linda casa afastada do
centro de Mendoza, com lindo jardim, piscina e... alguns cachorros
bravos!! Oh, my God!! Côco me avisa: "fica tranquilo que eles vão
te cheirar, estão vendo que estas comigo e não vão te fazer nada!".
Realmente eles vieram me cheiraram e em seguida já queriam brincar
comigo...mas eu sempre com o pé atrás... Côco tem 4 cachorros.
2 Beagles, uma cadela Rottywailler (que estava na sua loja nesta
ocasião) e 1 Dogo. O Dogo é uma raça de cachorro autenticamente
argentino. É uma mistura de Pitbull, com outros cães assassinos
que eu nem imagino. Para se ter uma idéia o Dogo foi criado para
caçar Puma e Javalis. Sua principal característica é o ataque, vai
direto na jugular. Além de que quando ataca não solta mais, pois
possui uma boca imensa com cavidades laterais que lhe permitem
respirar enquanto está com a pressa na sua boca. Bem, mas isto tudo
eu fui descobri só depois de apresentado a este animal
"inofensivo..."
Entrando em casa precisava ir ao banheiro urgente, largo as malas
pergunto onde é e lá vou eu...(não é o que vocês estão pensando,
era o número 1). Fui dar descarga e achei meio estranho aquela
"alavanquinha" ali. Acho que devo puxar isto para baixo, pensei.
Meti a mão. Xiii, acho que era para cima...A caixa ficou vazando
água para todos os lados. Corri e chamei Côco e dai tive a certeza
de que era para cima. Caramba eu sempre tenho de quebrar alguma coisa
na casa dos outros, lembram das minhas outras histórias em
Santiago e na Patagônia?
Pois é, não adianta, sou desastrado mesmo. Côco ficou ali algum
tempo consertando o meu estrago. Pronto, já estava batizado. Nada
disso. Côco resolveu mostrar-me o restante da sua casa. Daí, todo o
cuidado era pouco. Côco é colecionador e possui uma loja de
antiguidades. Na sua casa não era diferente. Estátuas de mármore
Italiano, Obras de arte de cobre, esculturas em marfim, móveis da
época de Luiz XV, cadeiras de madeira "sei lá de onde", jarros em
porcelana, peças em prata, etc...Pensei: "Meu Deus como vou me
locomover nesta casa sem quebrar nada, acho melhor eu voltar agora
mesmo para Porto Alegre". Contei o meu medo para Côco e ele me
disse: "Calma, tenho certeza de que tu não vai quebrar nada".
Aham, lhe respondi.
No dia seguinte Côco saiu cedo para a sua loja. Eu estava muito
cansado e resolvi ficar dormindo mais um pouco. Me levantei lá por
umas 10h, tomei café e resolvi dar uma volta pelo jardim para
conhecer a casa. De novo, "Santa Ingenuidade", pensei que o
Dogo iria me reconhecer. Bem, chegamos então no dia em que quase
morri em Mendoza. O instante em que toda minha vida veio em minha
lembrança e a hora em que eu mais me arrependi de ter saído para
fora de casa. Estava no jardim há uns 10m da porta. Foi quando eu
avistei "Egon", O Dogo daquela raça assassina. Tava ali, todo
branco (enorme) com uma cabeça imensa e uma boca que não gosto de
recordar. Ele olhou pra mim, eu olhei para ele e disse: "Oi Lindo!".
Ele abriu a boca e começou a rosnar. Eu voltei a lhe dizer: "Egon,
sou eu, André!" (que coisa estúpida, como se o cachorro fosse
lembrar de meu nome da noite passada). Foi quando eu gelei e abri
um sorriso mais estúpido ainda. Pensei: "Se eu correr, o bicho
pega. Se eu ficar o bicho come". Ai, meu Deus, o que eu faço!!
Neste Momento Egon começou a correr em minha direção latindo sem
parar. Fiquei estático. Pensei de novo: "Os cães farejam medo, eu não
posso sentir medo". E cada vez que pensava isto me dava mais medo
ainda. Egon chegou ao meu lado e me mostrou seus dentes. Eu
simplesmente fechei os olhos, encolhi meu corpo, coloquei os
braços sobre a minha cabeça e esperei o ataque. Curiosamente não
havia sentido nada. Olhei para o meu braço para ver se estava
ferido e nem um ataque. Seguia ouvindo os latidos do Dogo, mas
porque ele não me atacou? Baixo os braços de minha cabeça, olho
com receio e vejo os 2 cães beagles, latindo para o Dogo
incessantemente. Volto para minha posição ereta e olho a cena. O Dogo
enlouquecido dando mordidas no ar para todo o lado e os dois
cachorros latindo para ele "como se pedissem para que ele se
acalmar". Não acreditava no que via. Lentamente comecei a andar
de costas passo a passo até entrar dentro de casa. Fechei a porta.
Uuuuuuuffffaaaaaa. Meu corpo todo tremia feito vara verde. Não
consegui ficar em pé, fui direto para a cama até me acalmar um pouco.
A partir deste dia passei a amar os beagles.
Bem depois disso tudo o que veio era "sobrevida", daí foi só
alegria. Resolvi que deveria provar "todos" os vinhos mendocinos,
praticar esportes radicais que nada ia me acontecer, pois acreditava
que tinha o "corpo fechado". Quanto aos vinhos realmente provei
muitos deles, agora os esportes radicais... deixei para a próxima
viagem.
São mais de mil bodegas de vinhos espalhadas por toda Mendoza,
entre as mais famosas esta a Chandon. Basta andar pela cidade e pelos
seus vales (locais ideais para o plantio da uva) para ver as
"fincas", como são chamados os locais onde estão os parreirais.
Lembram da "maçã Argentina" que vemos no mercado? Pois ela é vinda
em sua grande maioria de Mendoza, além do alho e do azeite de oliva.
As montanhas da cordilheira dos Andes do lado mendocino foi set
de filmagens de: "Sete anos no Tibet", filme estrelado por Brad Pitt.
Na ocasião Côco alugou alguns de seus móveis antigos para locação
da película.
Porém, não poderia me despedir de Mendoza sem antes pagar um
"mico", só que desta vez a coisa foi bem pesada. No sábado à noite,
Côco e seus amigos de infância estavam planejando uma festa
surpresa para uma de suas amigas. Uma mulher (seu nome é Chiche)
que vive sozinha com seus 2 filhos. Eles haviam esquecido do
aniversário de Chiche que havia sido há quinze dias atrás.
Enquanto um dos filhos conseguiu retirar sua mãe de casa, o outro
nos recebeu para preparar a festa surpresa. O circo foi todo armado
nos fundos de sua casa. Eu estava ali de gaiato e resolveram me dar
uma função. Eu iria receber Chiche e me apresentaria como um pastor
evangélico da Igreja Universal, conhecida por lá como "pare de
sufrir!" (pare de sofrer). Logo quem eles escolheram para esta
função... com certeza não me conheciam direito.
Tudo pronto Chiche chega em casa apressada e me encontra sentado
no seu sofá. Lhe estendo a mão e me apresento: Hola soy el pastor
Dedé de la Iglesia pare de sufrir, como andas? A mulher fica
estática. Me olha de cima abaixo e pergunta a seu filho: Porque
tu deixaste este homem entrar na nossa casa? Eu lhe disse: calma
senhora, eu vim até aqui para ajudar-la. A mulher estava ficando
cada vez mais nervosa e sem nenhum pudor me convida para que me
retire de sua casa urgente. Não lhe dou a mínima e lhe pergunto:
- Quanto tempo faz que a Senhora tem este cachorro em sua casa?
Um mês, ela me responde. E onde o encontrou? Na rua, diz ela.
Pois bem este cachorro é meu e estava procurando já há muito tempo
(tudo armado pois sabia que ela havia encontrado o cachorro na rua
e gostava muito dele). A mulher já se desesperando novamente manda
que eu saia de sua casa (enquanto isto seu filho atrás dela se mata
de tanto rir e ela nem se dá conta). Senhora infelizmente não
poderei sair antes de cumprir minha missão aqui nesta casa. Eu
sinto que este ambiente está muito pesado e estou aqui para fazer
uma sessão de descarrego. Para isto trouxe os meus amigos da
igreja que estão aqui nos fundos e já começaram o trabalho de
oração, por favor me acompanhe. Chiche saiu pela porta lateral,
assim que me retirei, automaticamente ela trancou a porta. Neste
momento seus filhos lhe pediam que fosse para os fundos, mas a mulher
estava aterrorizada e não escutava ninguém. Correu para o portão
da garagem de acesso à rua e gritava para eu me retirar de sua casa.
Neste momento vimos que a coisa começava a ficar punk. Alguns
vizinhos começaram a escutar os gritos de Chiche. O pessoal no fundo
da casa cantava parabéns a você, mas ela não escutava nada. Seus
filhos seguiam implorando para que ela fosse até os fundos, mas
ela seguia do lado de fora implorando para que eu saísse de sua
casa. Sentindo o clima pesado, Côco sai dos fundos da casa e vai
em direção a Chiche, para dizer que tudo era uma brincadeira – só
que Côco estava com um chapéu destes que se usa em festa de
aniversários – Chiche não o reconhece e lhe diz: - E tu quem é
seu Filho da puta! Que vocês estão fazendo em minha casa!! Côco
se dá conta, tira o chapéu e lhe diz; Sou eu Côco, seu amigo.
Côco finalmente abraça Chiche que neste momento já estava a beira de
um colapso. Seu corpo tremia inteirinho. - Era como se eu estivesse
abraçando uma batedeira - contou Côco. Aos poucos os outros amigos
foram se aproximando e ela foi se acalmando. Ninguém jamais vai
esquecer deste aniversário, nem do pastor - diziam todos.
Ao final eu já estava integrado com o grupo e o assunto ainda seria
destaque por toda a noite. No outro sábado foi a vez de Côco receber
seus amigos em sua casa para uma janta em homenagem ao
"Pastor Evangélico importado do Brasil". Foi mais uma noite muito
agradável onde tive a oportunidade de ensinar todos a dançarem
samba!! Jajaja, não sabiam disto? Pois é Dedé tem uma técnica rápida
e eficaz para o aprendizado, quer saber, pergunte-me como? Ah, não
tem nada a ver com a Herbalife, jajaja.
Durante a minha estada por Mendoza tive a oportunidade de
conhecer muitos lugares com uma fotografia impressionante. Um dos
lugares que mais me impressionou foi "Potrerillos". Um imenso
dique (um paredão de pedra), com um reservatório de água de cor verde.
A paisagem contrasta com as montanhas (da pré-cordilheira) de cores
variadas e com as montanhas (da cordilheira) ainda com neve no pico
em pleno novembro.
Outro lugar em que não se pode deixar de conhecer é a reserva
natural de Villavicencio . É de lá que vem a água mineral de
nome homônimo. Além de exportada para os estados Unidos a água é
referência de qualidade em todo a Argentina. Villavicencio é o nome d
o hotel 5 estrelas que funcionava no local. Uma enorme casa cercada
por bosques e montanhas em um lugar bastante retirado de Mendoza.
Para o acesso ao local foi construída (exclusivamente) uma estrada
que, segundo os mendocinos é a mais cara do mundo, porque está
feita com água mineral.
No final de minha viagem ainda tive a oportunidade de passar o dia
na cidade de São Rafael, distante cerca de 250 quilômetros de Mendoza.
Além da cidade e de moradores conheci a localidade de "Valle Grande".
O lugar é o cenário perfeito para os amantes de esportes radicais
como rafting, trekking, montain bike, parapente, entre outros.
Nesta ocasião subimos a montanha para admirar o cânion de Atuel,
um lugar fantástico de vista impressionante. Para variar eu não estava
preparado para enfrentar tal subida na montanha – ainda mais logo
após o almoço. Ao chegar no local, fui obrigado a chamar o
"Hugo" e desta vez até os seus vizinhos compareceram!! Depois o
mais difícil era colocar uma corzinha na minha cara, para que eu
não saísse tão pálido nas fotos...Claro, mais uma vez eu teria
de escutar piadas deste tipo.
Ah, já ia me esquecendo de falar, fica em Mendoza o pico mais
elevado das Américas, o "Aconcágua" (com seus 6959m). Mas não me
pergunte como é, porque quando Côco foi me mostrar já havíamos
passados alguns quilômetros. Jajaja. Depois de tudo que havia vivido
em Mendoza não podia ficar zangado com meu anfitrião por este pequeno
detalhe. Porém, ele já ficou sabendo que muito breve o
"Pastor Dedé" voltará para exorcizar mais uma vez na cidade de
Mendoza. Côco, gracias totales, hasta pronto!!!
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