Dedé viaja pela Pluma
QUERIDOS AMIGOS,
Olá, tudo certo?
Estou em Buenos Aires. Saí na terça de Porto Alegre e cheguei aqui
ontem, quarta-feira. Porém, quase não chego com vida... jejeje,
vou explicar.
A Pluma sempre apronta das suas. Desta vez, o horário para saída
de POA era às 5 da tarde. O ônibus atrasou porque a correia do ônibus
rebentou lá perto de Tramandaí (registre-se que o ônibus é leito e
novo - 2004). Teve de esperar a chegada do socorro e com isso só
chegou em Porto Alegre passado das 7h, um pequeno atraso de mais de 2h,
o que já era um absurdo, mas o pior ainda estava por vir.
Durante o trecho de São Gabriel e Uruguaiana, senti que o motorista
andava em zigue-zagues, como se desviara de alguns buracos, já que
a estrada não é nada santa, até que achei aquilo normal. Santa ilusão
foi a minha ter pensado isto! Eram 3h da manhã quando de repente aquele
forte barulho de colisão e a sensação de que o ônibus tinha saído da
estrada e a qualquer instante íamos capotar. Foram alguns segundos
aterrorizantes já que a maioria das pessoas estavam dormindo e
acordaram com o susto. Não é que o motorista conseguiu bater de frente
com uma placa de sinalização colocada no canteiro central do acesso
de entrada para Quaraí? O ônibus subiu o Canteiro e a placa passou a
fazer estragos embaixo do ônibus. Todos pulávamos como pipoca até o
instante em que o motorista conseguiu parar. Apavorados, fomos ver o
que tinha acontecido. O motorista estava estático junto à direção,
por seu corpo e por todo o painel pedaços de vidros faziam uma sombria
decoração. Enquanto o pára-brisa, todo estilhaçado, exibia na sua parte
central um buraco de mais ou menos 50cm, algo em torno do tamanho da
placa. Descemos e a placa tinha desenhado suas medidas na parte frontal
do ônibus (faltou apenas a escrita de "SEU BARBEIRO, DORMINHOCO")
antes de fazer o estrago por debaixo dele.
Passado o susto e com o motorista dizendo que tinha desviado de um
cavalo por isso se chocou contra a placa (Ãh hã, hu hum!), claro que
todos nós acreditamos no coitado do moço e suas assombrosas olheiras,
já que o mesmo ainda iria nos conduzir por mais uns 30 km até
Uruguaiana, onde finalmente trocaríamos de carro e de motorista. Porém,
estes 30km pareceram 300, com o motorista a 30 por hora e olhando para
frente por fora da janela (lembram de Jim Carrey em um de seus filmes?
Mais ou menos isto...), pois o vidro estava estilhaçado e a visão era
precária. Legal era aquele imenso ar condicionado central
(buraco no meio do pára-brisa que ora ficava cada vez maior e também
introduzia alguns convidados (insetos) não desejáveis. Ah, detalhe, o
motorista não tinha telefone e então tivemos de parar num posto para
ele ligar de um orelhão para a empresa (é verdade) de modo que eles
providenciassem outro ônibus.
Finalmente chegamos na rodoviária de Uruguaiana, e em seguida chegou
o ônibus reserva. Ai, meu Deus! O ônibus reserva! O mesmo se encontrava
parado há muitos séculos, pois seu cheiro no interior era de um
queijo roquefort guardado no começo dos anos 30. Perguntei ao novo
motorista se havia alguma coisa para colocar dentro do ônibus para sair
aquele cheiro horroroso e ele me respondeu educadamente:
- Não , não há nada. É que ele estava parado há muito tempo, mas não se
preocupe que este cheiro até faz bem para os pulmões!
Com esta resposta engraçadinha senti que estávamos nas mãos de um
novo troglodita.
Pensam que acabou por ai? nada disso. Aos primeiros metros de
estrada o teto do ar condicionado central (agora me refiro ao ar
projetado para o ônibus) começou a desabar. Carroça velha era carro de
luxo perto daquilo. Fui ao fundo buscar uma água para me acalmar.
Claro que o freezer não funcionava e a água estava vencida e quente.
Pensei em tomar um café, mas este também era da época do Brasil
colônia. O que faço agora?
Chegamos na Aduana, (A Aduana de Uruguaiana ninguém merece) e a moça
que atende do lado da Argentina me olhou e começou o interrogatório:
- Que vás hacer en Buenos Aires?
- Vou fazer turismo - respondi já sem muito saco. E
então a "chica" foi adiante...
- Y tenés Plata?
- Não! respondi com aquele sorriso amarelo esperando
a resposta, que veio e foi implacável.
- Y entonces como vás hacer turismo en Argentina?
A moçoila Argentina deixou picando aí DEDÉ entrou com bola e tudo,
dizendo (agora já em castellano):
- Mi hermosa hermana, yo no me preocupo com plata porque tengo
muchas tarjetas (cartões) internacionales y hay muchos
cajeros (caixas eletrônicos) a mi disposicion en Buenos
Aires.
- Entonces mostreme todo isto (com os olhos brilhando
me pediu a mocoila)
- Qué querés ver? - lhe perguntei ironicamente.
- Quiero ver tus tarjetas de crédito!
Então saquei meus cartões cinco estrelas desde a época de que era
engenheiro (sim, porque se analisarem bem minha conta, hoje não me
dariam nem meia estrela) e joguei em cima do balcão dizendo:
- Aqui están senhorita!
Não satisfeita com os cartões, acreditem, a “mocréia”
chegou mais perto de mim e disse:
- Yo necessito de sus últimas transaciones con su tarjeta!
Não acreditando no seu pedido absurdo, minha vontade foi de mandar
a vaca à merda, mas respirei fundo e busquei na minha carteira, não
só paciência, mas sim meu último comprovante do cartão. Era o da
passagem que eu acabara de comprar em Uruguaiana há alguns minutos
atrás. Então lhe mostrei.
- Esta aqui, mi billete de pasagem.
A vagaba me olhou fundo nos olhos e disse:
- Cincoenta reais? - e eu respondi:
- Sim, cinquenta reais.
E continuou...
- El Sr. pago cincoenta reais a hora?
- Ãh, hã, gaste pero con mi tarjeta, porqueq plata infelizmente
yo no trago comigo
A vadia me olhou e vendo que não iria conseguir me arrancar nenhum
centavo e cansada tentar me persuadir disse:
- Está bien muchacho podés pasar!
Sai dali com aquele sentimento de impotência e raiva frente a tudo
que passara e que já passou outras tantas vezes comigo naquela mesma
fronteira e confesso que tive vontade de chorar. Lembrei também da
minha viagem de avião para Buenos Aires onde não existe nada disso
(sem falar no tempo: 1 hora de avião contra 20h de ônibus, nada fácil),
além de não precisar sofrer toda essa humilhação e também não passar
pelas fortes emoções das aventuras de uma viagem de ônibus pela Pluma.
Ah, já ia me esquecendo de contar que além do mau cheiro do ônibus
você também é sempre premiado pelo maravilhoso CHULÉ dos pés do
passageiro do banco de trás que, para a sua maior comodidade, durante
a viagem sempre viaja sem aquele tênis podre nos pés.
Ao mesmo tempo lembrei me dos quase 900 reais do preço da viagem de
avião contra os apenas 250 reais da viagem terrestre, fiquei bem de
novo na mesma hora. Agarrei na minha bagagem de mão, peguei alguns
ansioliticos e tomei como se fossem deliciosas pastilhas vick.
Quanto ao restante da viagem, ah!, o restante da viagem... deve ter
sido uma loucura... mas não me perguntem, pois só despertei no
dia seguinte às 2h da tarde, aqui na rodoviária de Buenos Aires.
Desci do ônibus, peguei minha bagagem, lavei meu rosto, levantei
minha cabeça, programei meu cérebro para pensar só em espanhol, disse
amém, peguei o metrô e pensei: Se for para ver minha família e meus
amigos farei tudo outra vez.
Que sorte esta minha... de poder viajar, escrever, amar, ter tantos
amigos e encontrar outros, passar poucas e boas, sentir medo, rir,
chorar, conseguir uns trocados e ainda estar dividindo isso tudo com
todos vocês!
Estamos vivos e isso é o que importa, o resto é resto! Viva o Boca
na final da Sul-Americana (Tá bem... viva o grêmio na segunda
divisão!)
Viva as coisas boas desta vida... mas só se for de coração!
Aguardo notícias de todos!
Beijos e abraços... Dedé
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